sábado, abril 22, 2006

Sonhos

Não sou seguidista de ninguém. Nunca fui seguidista do que quer que fosse, homem ou escola. Também não sou um homem de um vasto conhecimento. Interessou-me sempre mais, dentro do que se considera ser a razão e o conhecimento humanos, perceber a dada escala o funcionamento de certas coisas. Saber do que falo, quando falo de algo, e saber a escala, os limites que se impõem. E quando falo do que não sei, fazê-lo com a consciência disso mesmo, fazê-lo com a incerteza que todos temos àcerca de tudo, fazê-lo sem dar o passo maior do que a perna, evitando o disparate.
Se o consigo ou não, isso é outra história. As mais das vezes, sei que o não consigo.
Ora o princípio de que parto, que alguns dirão determinista - eu sem saber se o é ou não, que inscrições em catálogos foi coisa que nunca me preocupou - é que tudo evolui de acordo com um mecanismo bem determinado mas indeterminável pela mente humana.Basicamente - não haverá acasos. Não haverá acasos, não haverá sorte, não haverá vontade, não haverá livre arbítrio.Somos todos e tudo o que nos envolve, fruto das circunstâncias, internas e externas. Se é que o interno e o externo são de fácil distinção.No actual estado das coisas, bem ou mal, pouco importa, supomos, os que acreditam na ciência, que somos um somatório de partículas elementares. Somos nós e tudo o que nos rodeia. Matéria e energia, assim o dizemos. Matéria e energia, tanto quanto as diferenciamos e voltamos a confundir.
O importante para mim é que, partindo desse princípio, apenas sou o resultante de qualquer coisa que desconheço. Ao estar a escrever estas linhas, não sou eu, é o conjunto de matéria e energia que tem a minha forma. É uma ordem dada algures no tempo remoto que se complicou e assim resultou. Um passo no caos, um passo na ordem, um passo no tempo, um passo seja no que for. Nada mais do que isso.Se não fosse ateu, encaixaria nos divinos desígnios toda a sorte de ordem das coisas. Não o sendo, não sei em que a encaixar. Não teria crença onde a encaixar.
Mas partindo deste princípio, de cada vez que me dá a ilusão para julgar que existe de facto uma vontade própria, um livre arbítrio qualquer que seja, caio no mundo do sonho, que é onde de facto vivo.É que tem que ser forte a ilusão de que mandamos nas coisas, decidimos a nossa vida, seguimos por aqui e não por ali. Para que nos deitemos a pensar na primeira pessoa. Sujeito-me assim ao mundo do sonho, como todos os outros.Mas continuo convencido (e posso eu convencer-me de alguma coisa?) da mesma ilusão, dentro dela, como nos sonhos.Como nos sonhos - e é aqui que cabem - em que por vezes, saltamos de um sonho para o outro, julgando saber que o primeiro é sonho e o segundo o não é.
Supondo que é de níveis de compreensão das coisas ou de fé numa crença de que a compreensão é por ali e não por acolá, que se trata, então suponhamos pois que os sonhos são uma boa comparação.Quando se salta de sonho em sonho, sonhando que um é realmente um sonho e o outro o não é, podemos dizer que descemos ou subimos de nível, como se quiser.Aqui, neste argumentário absurdo, passo ao nível seguinte, o qual é, encarando as coisas tal como o mundo de Alice dita que eu as veja, uma combinação de seres vivos e matéria desprovida de vida. E de energia. Ora aqui convenço-me, iludo-me com o seguinte:A vida, nas suas mais diversas formas, parece ter um único fito, o de sobreviver. Seja lá a vida o que for. Cada um dos seres dela animados mais não faz do que abrir caminho a esse destino. Sobrevivemos, reproduzimo-nos, cuidamos das crias, uns mais do que outros.No mundo de Alice, chamamos amor, chamamos paixão à pulsão da sobrevivência da espécie que conduz à reprodução.Chamamos outros nomes a outras pulsões, mas todas elas concorrem para o mesmo fim.
Por fim, já em outro nível, mais baixinho, sempre no mundo das ilusões, continuo a espantar-me com os crentes na razão. Com os que tanto clamam por ela, sem rever os seus cálculos. Que tanto a exigem e dela fazem tábua-rasa. Que tanto criticam e não se olham ao espelho. Que tanta coerência pedem sem saberem o que é e em que quadro vigora, logo não a tendo em conta. Que dividem a política no mais reles dos Sporting - Benfica, em que os da cor são sempre bons e os outros sempre maus.Que não são capazes de extrair nem sequer as mais próximas consequências do seu argumentário. Fosse ele passado à prática.Por mim, reitero os meus votos de que o mundo jamais seja feito de acordo com os meus desejos.
E volto a sonhar…

3 comentários:

Mãe disse...

"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos."

Sebastião da Gama

Mãe disse...

Espero que a escolha do "mais reles dos Sporting - Benfica" tenha sido perfeitamente aleatória :)

Beijo

Rui Miguel Ferreira disse...

Claro que foi Ernest...

Bjo
Rui