domingo, setembro 10, 2006

11 de Setembro

11 de Setembro de 2001

Enquanto indivíduos, há acontecimentos nas nossas vidas que nos mudam para sempre, que alteram a nossa forma de olhar, de sentir e por consequência de agir. Esses momentos de ruptura, direi baseado na minha parca experiência, não são frequentes. As experiências limite que nos alteram os traços transversais daquilo que na essência somos e fazem de nós aquilo que somos e que os outros entendem de nós, não acontecem muitas vezes nas nossas vidas, nem seria possível que tal sucedesse sob pena de uma desordem identitária esquizofrénica. Enquanto indivíduos, essas experiências muitas vezes ficam no sigilo de uma história de construção que é a nossa, assim como os pilares são sustentados pelo ferro invisível que dá origem e forma a uma estrutura diferente. Aquilo que transparecemos é o resultado de várias variantes algumas delas apenas nós as conhecemos e muitas outras que nem nós as sabemos.
E, há acontecimentos na sociedade, que alteram a vida de milhões de pessoas em simultâneo. É como se um corpo social que se dirige numa direcção, bruscamente invertesse a direcção. São rupturas magnânimas. Ficam na história, prevalecem para sempre. São recordadas, estudadas, avaliadas. Ficam na história, mas mudam o futuro. Estes acontecimentos, também eles à semelhança dos acontecimentos nas nossas vidas privadas, são raros.
O 11 de Setembro de 2001 é um desses acontecimentos. Para além da queda do muro de Berlim, não recordo um acontecimento, durante a minha vida, com tanto impacto. E, mesmo a queda do muro de Berlim foi diferente. Foi um sinal de esperança já ansiosamente aguardado. Fazia parte de um plano de futuro. O 11 de Setembro foi um choque, um golpe, uma lança à alma e coração de todos. Um retrocesso. O mundo mudou naquele instante.
Até esse momento mantive uma ideia negativa do pensamento, política e modo de vida americano. No momento da catástrofe, vergonhosamente admito, senti algum alívio por alguma coisa estar a acontecer contra os Estado Unidos. Tinha uma posição anti americana, influência de alguma estranha corrente de pensamento(?) europeia.
Depois das imagens do 11 de Setembro, comecei a mudar, assim como o mundo mudou naquele mesmo instante. Demorei um pouco mais, mas fui ao encontro da essência do que é fazer parte de uma cultura ocidental assente em princípios e valores de liberdade. Não foi um ataque aos Estados Unidos. Foi um ataque ao mundo, a todas as pessoas que, apesar das imensas coisas erradas que fazemos e não conseguimos ainda transformar, acreditam que esta é uma forma de vida melhor, mais livre, mais justa e ainda inacabada e tal como nós imperfeita. Os Estados Unidos são resultado da Europa e a Europa é resultado dos Estados Unidos. Vivemos uma cultura semelhante. Bebemos as mesmas bebidas, vestimos os mesmos jeans, vemos as mesmas peças teatrais, ouvimos as mesmas músicas… aspiramos por sonhos semelhantes e, podemos escolher alguns dos caminhos por onde passamos.
No World Trade Center, vivivam, trabalhavam pessoas de todos os continentes, de muitas cores, de muitas culturas, de todos os estratos sociais, de muitas bandeiras, de muitas religiões. Não foi um ataque aos Estados Unidos. Foi um ataque a um mundo que não precisaria de barreiras, mas apenas de todos.



























2948 mortos confirmados

24 dos quais desaparecidos

de 37 nacionalidades diferentes

de todos os continentes da Terra

(3 cidadãos portugueses)

sábado, agosto 05, 2006

Uma viagem ao interior da alma

Não sou um cinéfilo daqueles que vêem todos os filmes, em vez disso, gosto do cinema pelo puro prazer dele, pela psicologia humana.. Depois de anos de Hollywood, acabei por me render ao cinema de Roberto Rossellini e pares... ao cinema que exige do espectador que seja mais do que isso, que pense, que seja activo na construção do mesmo. Numa recente entrevista dada à revista Time, a filha de Roberto Rossellini, Isabella, dizia que "Nós estamos acostumados a ir ao cinema onde te dizem: agora chore, agora um momento de suspense. É passivo..." nada, de facto, acontece, e um espectador é tratado como... um amputado da alma, sem acção e vontade própria.. Enfim, essa é uma característica da nossa sociedade e do nosso tempo: a falta de vontade e a falta de acção...
Mas, da última vez que levei um filme para ver, calhou em sorte "Diários de Che Guevara" ou como no original "Diários de motocicleta" do realizador brasileiro Walter Salles... Em tempo de férias, esta foi uma escolha recheada de sorte.. por tantas razões, algumas das quais inexplicáveis.
O filme, de 2004, tem todos os dons (e mais alguns) do bom cinema, desde o sonho, ao humanismo, às imagens deslumbrantes, às personagens deliciosas, ao "toque" que deixa dentro de cada um... que os filmes, para mim, são isso: o que deixam.
Mas, o que acontece? Segundo a sinopse oficial do filme: Che Guevara (Gael García Bernal) era um jovem estudante de Medicana que, em 1952, decide viajar pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). A viagem é realizada em uma moto, que acaba quebrando após 8 meses. Eles então passam a seguir viagem através de caronas e caminhadas, sempre conhecendo novos lugares. Porém, quando chegam a Machu Pichu, a dupla conhece uma colônia de leprosos e passam a questionar a validade do progresso econômico da região, que privilegia apenas uma pequena parte da população. Mas, o filme, é muito mais do que isso, muito mais mesmo. Sem revelar mais, sublinho a interpretação mais do que magnífica de Rodrigo de la Serna - inexquecível e a banda sonora.
Não é só um filme sobre Che Guevara. O Che pode ser qualquer um de nós. Há qualquer coisa que sem explicação aparente provoca um tumulto dentro da alma, uma revolução, uma imposição do sentido de liberdade, do sentido de emoção, do sentido da vida. No final, a alma mergulha numa sensação de vazio tão grande, que impõe-se uma mudança, por mais pequena que seja... e ela acontece mesmo.
É uma viagem profundamente simbólica.
Procuro alguém para a viagem.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Regresso

O Rupturas regressa para alegria dos seus milhares de leitores (que eu sei que existem!!). Depois dos céus cinzentos e das águas inesperadas, aí temos o bom calor, os céus azuis, as praias e o mar... e a realidade em desespero.

Cartoon retirado da revista Time


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domingo, junho 25, 2006

...e mais The Stone Roses...

... a chuva lá vai, lentamente, passando... vão ficando as nuvens.


The Stone Roses

I wanna be adored

I don't have to sell my soul
he's already in me
I don't need to sell my soul
he's already in me
I wanna be adored
I wanna be adored

I don't have to sell my soul
he's already in me
I don't need to sell my soul
he's already in me
I wanna be adored
I wanna be adored

Adored

I wanna be adored
You adore me
You adore me
You adore me

I wanna
I wanna
I wanna be adored

I wanna
I wanna
I wanna be adored

I wanna
I wanna
I wanna be adored

I wanna
I wanna
I gotta be adored
I wanna be adored

domingo, junho 18, 2006

...chuva e céus cinzentos

E, enquanto a chuva resolve continuar Junho fora, relembro sons de outros tempos (que tempos!)...
Ena, ena(!) 'tou nostálgico.... chuva e céus cinzentos... e Stone Roses..



The Stone Roses.

Going Down

Dawn sings in the garden
Phone sings in the hall
This boy's dead from two day's life
Resurrected by the call
Penny here we've got to come
So come on round to me
There's so much penny lying here
To touch, taste and tease
Ring a ding ding ding
I'm going down
I'm coming round
Penny's place her crummy room
Her dansette crackles to Jimi's tune
I don't care I taste Ambre Solaire
Her neck her thighs her lips her hair
Ring a ding ding ding I'm going down
I'm coming around

All thoughts of sleep desert me
There is no time
Thirty minutes brings me round to her number nine

Yeah she looks like a painting
Jackson Pollock's Number Five
Come into the forest and taste the trees
The sun starts shining and I'm hard to please
Ring a ding ding ding I'm going down
I'm coming around

All thoughts of sleep desert me
There is no time
Thirty minutes brings me round to her number nine

To look down on the clouds
You don't need to fly
I've never flown in a plane
I'll live until I die

segunda-feira, junho 12, 2006

Já quase ninguém é ao longe, já quase em ninguém se vive o desejo ou a credibilidade de um mundo outro, muitas vezes viver deixou de ser vivível. Mas continuará sempre a haver lugares e momentos de resistência em que o desejo de reinveste, lugares e momentos de relação com a alteridade em que nos aproximamos daquilo que desconhecíamos e que, de repente, descobrimos como se desde sempre nos tivesse pertencido. O Amor continua a ser um desses momentos, o Amor é ainda um segredo no deserto, uma possibilidade, sempre em aberto, da alteridade se cumprir, da singularidade se iluminar e resistir à velocidade com que o mundo se inebria e igualiza. É que quando se ama tem-se a impressão de Renascer, se bem que não se soubesse que se estava morto.
AMOR: GRANDES CERTEZAS, MUITAS INCERTEZAS

Por: Terezinha A. Marcon Constante e Viviane Borges Goulart

Ferreira (l999), em seu dicionário, assim registra: “O amor é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem; ou de alguma coisa”. Este é um significado, mas esse termo “amor” tem sido usado em sentidos tão diferentes, que nenhum conceito consegue abrangê-lo, e cada tentativa de explicá-lo sempre exclui outras.
De acordo com Pereira (l987), relativamente ao amor, “o esforço de elucidar o tema parece dar, como resultado, apenas a percepção de sua complexidade”. Pensadores, filósofos, psiquiatras e estudiosos já tentaram desvendar esse mistério, que provoca sérias mudanças no comportamento humano, mas logo notaram a diversidade intrínseca do amor e jamais conseguiram estabelecer um conceito, menos ainda uma definição.
Segundo Rollo May (l987), distinguem-se, na cultura ocidental, quatro formas de amor: “Sexo, às vezes chamado de luxúria ou libido (ou, pelos gregos antigos, epytymia); Eros, impulso de procriação e criação; Philia ou amizade, amor fraterno; Ágape ou caritas, o amor devotado ao bem dos semelhantes, essência filosófica do cristianismo em sua doutrina original. Num conjunto de entrevistas objectivando conceitos de amor, para psicóloga Maria Tereza, “o amor é um sentimento que envolve sensações de prazer e bem-estar e que ocorre quando existe um senso de identidade entre pessoas com identidades bem definidas e diferenciadas”. Para ela, o amor não se limita a preencher carências, mas significa uma relação de complementaridade e enriquecimento mútuo. O amor representa a essência da vida, nele se encontra um sentido para viver cada dia.
Ainda, a partir das entrevistas com pessoas de faixas etárias e níveis sociais diferentes, identifiquei outros conceitos importantes. Para uma estudante de jornalismo, l7 anos, “o amor é a união de todos os bons sentimentos. Envolve muitos mecanismos humanos (físicos, químicos, psicológicos), e torna-se realmente difícil defini-lo. Porém, arrisco-me a dizer que amar consiste em estar num inconstante estado de graça, numa perturbação interior involuntária. Compreende uma relação de bem-querer, cujo enigma nos é mostrado em cada gesto, intimidado, no entanto, por qualquer manifestação expressiva. No amor ocultam-se os verdadeiros mistérios da vida.
Para Cleuza, 35 anos, deficiente visual, o amor está nas sensações e na natureza: “Escuto e sinto o vento, o barulho da folha que cai, sinto o cheiro do verde. Respiro e sinto calor, às vezes ouço a chuva tocando a terra. Ao ouvir e sentir, caminho para a vida que não vejo, buscando conhecer o que é amor”. Para a professora Maria da Glória, 39 anos, “o amor é a aceitação do próximo”. E para Santana, 63 anos, mãe de l2 filhos, “o amor é para sempre, é uma fonte viva de fé, que fortifica e impulsiona a vida”.
Entrevistando crianças e adolescentes de uma escola pública, percebi que o amor ainda se revela puro e inocente, desejando o bem do próximo, reconhecendo a figura materna como o amor mais profundo e verdadeiro. E remetendo-me, agora, a Platão, aí identifico o amor como desejo de união com o belo, um processo de ascensão espiritual que progride rumo a um estado de contemplação do cosmos, de comunhão com o Ideal, de que se constituem exemplos o amor de Dante por Beatriz e de Petrarca por Laura. Situados entre as fronteiras do humano e do eterno, o amor e a esperança de felicidade, para Dante e Petrarca, ameaçam esvaziar-se com a morte de Beatriz e de Laura. Porém, Dante, em seu itinerário das trevas para a luz, coloca Beatriz na eternidade paradisíaca, porque acredita que ela tenha atingido o mais alto grau de pureza, passando a ser a ligação do humano com o divino. Beatriz, não a mulher, mas a essência, torna-se, para Dante, a representação de que o eterno se concebe, de que o reino de Deus se faz a partir do reino do homem e que isso acontecerá por intermédio da amada. Beatriz é quem o guia no céu, simbolizando o conhecimento dos mistérios divinos. Ela conduz Dante até a morada do Criador e, lá, por um instante, ele desfruta da suprema visão de Deus, visão tão doce que palavras humanas não saberiam expressá-la. A ideia de tempo precário, para Dante, encerra-se na entrada do Paraíso, onde mora o Amor absoluto.
Para Petrarca, o passado é alimento indispensável ao presente. Amou Laura platonicamente a vida inteira, sem jamais declarar-se, e a ela dedicou seus melhores poemas. Com a morte de Laura, o eterno ficou cristalizado no tempo, ou seja, no passado. Sua memória, sempre renovada pela saudade e lembrança de Laura, o consome. No passado, onde ficou a amada, está o suporte para sua existência: E só de nela pensar consigo paz. Petrarca amou Laura, em vida, por 2l anos,
De preso Amor vinte e um anos ardendo,
sem esquecer sua beleza primeira

Ele a via com os olhos da alma, imortalizando-a em esperança e desespero:
E assim de uma só clara fonte viva
Vêm-me o doce e o amargo, que me alimentam.

A ausência da amada fá-lo pensar na própria morte:
Assim face aos cruéis golpes da morte
fujo não célere demais
O amor em Dante e Petrarca transcende o plano terrestre e chega à abstracção total, que a voz de Camões também tenta alcançar, como um dizer imponderável, porque imponderável é o Amor.
Analisar a poesia lírico-amorosa de Camões, é partir de reflexões sobre o sentimento que aflige os corações humanos. Sua poesia desvenda um “eu” que, guiado pela razão e pela emoção, experimenta os mais íntimos pensamentos e desejos, a insatisfação amorosa, a angústia do homem. O poeta não descreve o amor apenas como um sentimento impulsionado por desejos, mas que vem da alma. Na relação com a natureza, busca a “Cousa amada”, a alma ligada à natureza, no pranto amoroso:
Co’a água que cai
Daquela espessura,
Outra se mistura
Que dos olhos sai.
Toda junta vai
Regar brancas flores;
Onde há outros olhos
Que matam de amores.
Celestes Jardins: As flores, estrelas;
Horteloas delas
São uns serafins.
A presença da natureza torna-se sentimentos, angústia em busca do amor:
Sinto o cheiro do verde, as flores caindo,
Os pingos da chuva, o vento.
Respiro quase sufocado,
Caminhando para conhecer o que é amor.

São versos que fazem retornar a Cleuza, 35 anos, deficiente visual, que procura conhecer o amor através do cheiro, do vento. Para muitos poetas, a natureza estabelece uma relação essencial com a alma, em suas emoções mais profundas.
Na poesia de Camões, a insatisfação humana é representada na constante angústia de conceber o amor, na luta íntima entre o real experimentado e o ideal buscado, comunhão plena, a transformar, não os que se amam numa só carne, mas, mais que isso, numa só alma.
Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar:
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada...
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si, somente, pode descansar,
Pois com ele tal alma está aliada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia,
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples, busca a forma.
É um processo de assujeitamento tão radical, que mesmo o que é contraditório nega a polaridade, rompe com o conceito de dor:
Amor é fogo que arde sem se ver:
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

A negação da polaridade quer dizer a vitória do sentimento, do coração que consegue elevar-se ao encontro da Razão, o Amor por ela vencido, não para ser aniquilado, mas sim para chegar ao inteligível, ao cósmico, ao Ideal, elevado a uma condição maior, sem comparativos:
Sempre a Razão vencida foi de Amor
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis amor ser vencido da Razão
Ora que caso pode haver maior.

Assim, no lirismo de Camões, o amor é visto como ideia e como manifestação de carnalidade. Camões não descreve uma mulher ideal, mas um ideal de mulher, um desejo que se supera, uma carnalidade que é sábia ao vencer-se pela contemplação, não de uma formosura ideal, mas de um ideal de formosura:
Porém como resisto
Contra um tão atrevido e vão desejo?
Faço-me forte nessa vista pura.
Armando-me da vossa formosura...

Uma outra vez é oportuno retornar às entrevistas. Para a estudante de Jornalismo, “o amor envolve muitos mecanismos físicos, psicológicos, químicos que causam uma perturbação interior”. Camões soube descrever toda essa “perturbação interior”. O amor como objecto do desejo, na lírica de Camões, é composto de sentimentos contraditórios que se tornam mistério e causa de inconformismo, para chegar ao amor como um inconstante “estado de graça”, mobilizador de profundas mudanças de estados de alma:
Mudam-se os tempos, mudam as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança,
Todo mundo é composto de mudanças,
Tomando sempre novas qualidades.

Camões esforça-se para encontrar uma essência das coisas, fruto de vivências, procura representar a experiência do homem, não como um sentimento individual, mas “Amor” que perturba, angustia, desespera, a razão de ser de um homem, de uma sensibilidade guiada pela esperança, na busca incessante da realização amorosa.
Como Petrarca amou Laura, e Dante a Beatriz, também Camões expressou o “Amor” elevado a sentimento universal, dividido entre o mundo sensível e o inteligível, um sentimento imponderável, um sofrer que mata, e, ao mesmo tempo, uma esperança que alivia. O “poeta do amor”, em seus poemas, fala da dor do homem, do descontentamento e da esperança. Em Camões a dor se aprimora, reconstruindo, pelo Amor, a harmonia dos corações humanos, na luta constante entre o ser e o que deve ser, mundo em desconcerto:
Quem pode ser no mundo tão quieto
Ou quem terá tão livre pensamento
Ao ver e notar do mundo o desconcerto?

quarta-feira, maio 17, 2006

A espera

Uma leitura de Haja o que houver de Pedro Ayres Magalhães

(Fica, aqui, mais uma homenagem a Pedro Ayres Magalhães. Em co-autoria com Marion Maldener.)

A poesia de Pedro Ayres Magalhães recorda a poesia trovadoresca. Evoca os seus temas preferidos, o Espírito e o Amor. As suas obras são retratos de momentos fugazes, de emoções, feitas de sonhos e paisagens, esperanças e saudades.

Nos seus poemas, o músico e poeta, expressa o amor à cultura portuguesa, com palavras impregnadas de saudade, nostalgia e suavidade. Comprometido com essas emoções, Pedro Ayres, romântico e sentimentalista, escreve os seus versos mergulhado na própria alma, em apelos e súplicas numa eterna espera.


Haja o que houver foi composto em l997, integrando o álbum “O paraíso” de Madredeus.

Haja o que houver

(Pedro Ayres Magalhães)

Haja o que houver
eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti
Volta no vento
ó meu amor
Volta depressa
por favor.

Há quanto tempo
já esqueci
porque fiquei
longe de ti.
Cada momento
é pior.
Volta no vento
por favor.

Eu sei, eu sei
quem és para mim.
Haja o que houver,
espero por ti.

Neste poema, a espera incessante está presente no refrão, um recurso típico da poesia popular, das cantigas de amor e de amigo, como expressão do desgosto de amar e de ser abandonado, de momentos de dores trazidos pela ausência.
Haja o que houver fala do amor em ausência, numa distância física. A morte da pessoa amada trouxe a amargura, o apelo, a esperança: Volta depressa... Volta no vento...

Uma outra compreensão do poema coloca a pessoa amada numa distância emocional, diferente da distância física, pois, quando um deixou de amar, está insensível, apesar de ambos estarem presentes fisicamente.


Este poema coloca o amor como sentimento mais próximo da alma do que dos sentidos, que não arrasta, nem à morte e nem à desesperança. Evoca traços trovadorescos, ainda que tenha sido escrito na actualidade, e o sentimento autenticamente português – a saudade.


Constituído por versos livres, sem grandes preocupações com a métrica, este é um poema composto por vinte versos, numa linguagem onde os verbos merecem atenção. Conjugados no presente, pretérito e futuro, constroem uma imprecisão temporal.


A insistência na metáfora, Volta no vento, clama por um retorno veloz, que se iguala a um vento uivante. É um clamor reiterado em outros versos, que dá a ideia de espera incansável.

Fascina-me a simplicidade com que se transmite tamanho sentido.

Haja o que houver,

espero por ti.

Para ler e/ou ouvir.

domingo, maio 07, 2006

150 anos de Sigmund Freud


A evolução do pensamento ocidental, e por consequência, da nossa própria forma de olhar, compreender e agir sobre o mundo, deve o seu impulso a alguns dos pensadores mais brilhantes de sempre e para os quais temos uma dívida sobre aquilo que hoje somos.
A evolução da nossa sociedade nos últimos 5 séculos deve-se, muito particularmente, a algumas mentes extraordinárias que ruíram com a matriz narcísico/divina do ser humano. Primeiro com Galileu, depois com Darwin e depois com Freud.

Galileu tirou o homem e a Terra do centro do Universo, ao desacreditar a teoria do geocentrismo, advogando a teoria do heliocentrismo.
Darwin contrariou a criação divina do homem descrita pela Bíblia ao provar a teoria evolução das espécies.
Freud revolucionou a sociedade ao anunciar a existência do inconsciente – a “tal” zona do psiquismo constituída por pulsões, tendências e desejos cuja formação se deve em grande parte às etapas da infância. Uma zona que não é passível de conhecimento directo e que é a essência do individuo.
Para além de todas as outras revoluções que Freud trouxe para vários campos da sociedade, aquela que eu enquanto leigo nestas matérias mas profundo interessado considero a principal, é a continuidade na perspectiva de um novo conceito de homem que vinha já de Galileu e Darwin. Com Freud, o homem sabe que por força do inconsciente, nem ele próprio controla. Deixámos de ser o centro do Universo, para compreendermos que fazemos parte da mesma natureza de todos os outros seres vivos, que respondemos pelas leis da natureza e que nem sobre nós temos o verdadeiro controlo que acreditaríamos alguns séculos atrás ter sobre todo o Universo. É uma espécie de morte do narcisismo, é uma espécie de descer dos píncaros de um lugar que nunca existiu.

150 anos após o nascimento de Sigmund Freud, a ideia que temos de nós próprios e o Ocidente enquanto colectividade, é radicalmente diferente. No século XX a arte: o cinema (Bergman, Woody Allen, Hitchcock,…), a pintura (Dali,…), a literatura, a música, os movimentos políticos e os estranhos movimentos do coração incorporam a linguagem de Freud. No quotidiano mais vulgar Freud está presente; até nos desequilíbrios do vizinho a nossa linguagem incorpora a linguagem de Freud – pode ser psicótico ou depressivo, seja lá o que essas expressões queiram dizer elas já fazem parte da linguagem quotidiana. Gostamos de ser complexos, de ter aquele mundo interior que é só nosso e que mais ninguém imagina, gostaríamos que o nosso inconsciente esquecesse partes do nosso passado, mas não foi passado nenhum, é uma parte do presente, gostamos da forma como Freud prestou atenção às coisas mais pequenas e quotidianas mostrando-nos que as coisas mais triviais da vida afinal não são assim tão insignificantes como pensávamos e por vezes são as mais importantes, … Poder-me-á ajudar a compreender porque não gosto de leitão sem nunca o ter provado ou porque às vezes a raiva, por incrível que pareça, parece “saber” bem ou mesmo a razão porque estou a escrever este artigo.

Aquilo que sou e que somos seria extraordinariamente diferente sem Freud. É essa a homenagem que lhe devemos. Viena, Berlim, Paris, Roma, Madrid, Londres, Nova Iork... multiplicam-se em actos, exposições, livros, conferências que possam recordar alguém que nos ajudou a dar mais uns passos em frente.

Eu vou voltar a abrir a “Psicopatologia da vida quotidiana”...

Mãe

A minha mãe.

quinta-feira, maio 04, 2006

As coisas pequenas


Há lugares tão perto

...tão especiais

...paraísos para a alma.
Não consigo dar-vos a perceber o som de fundo destas imagens. Mas, imaginem toda a paisagem sem ruído algum (incrivelmente não se ouve um ruído que seja), apenas a natureza e a alma. Aqui consegue-se "falar" com a nossa alma, estabelecer um diálogo interior tão apaixonante como se de repente, tivessemos a conhecer alguém que nos foi sempre desconhecido.
Há lugares tão perto de nós aos quais nunca prestamos atenção. Também há pessoas tão perto de nós às quais nunca olhamos.
As coisas pequenas e mais próximas são, sem dúvida, as melhores da vida. Elas fazem e são a essência.
As coisas pequenas
(Pedro Ayres Magalhães)
Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.
Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.
E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto, nao será
só a que resta;
a horaque esperei a vida toda,
é esta.
E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora
"Aquele que é fiel nas coisas pequenas, será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á também nas grandes" (Lc 16, 10).
O lugar: Vale Manso, Barragem Castelo do Bode, Martinchel, Abrantes.