domingo, julho 27, 2008

Mergulhei ao longo dos teus olhos

Mergulhei ao longo dos teu olhos
Rui Miguel SF

Mergulhei ao longo dos teus olhos
na tua luz profunda.
Caminhei pela tua mão fora
ao sabor do teu vento.
Os teus olhos eram mãos
e as tuas mãos água no meu corpo...
Eras um oceano
eu uma onda solitária,
eras as estrelas num céu escuro
que eu sonhei ter.
Chamei-te nuvem
mas, eras horizonte
sempre perto
sempre longe.

a: Neiara Nívea Lima Costa, 11.03.2008

quinta-feira, maio 08, 2008

À linha d'água

Sento-me à linha d'água
e lanças-me a espuma e o sal
enches-me de maresia
cheiras a alegria e mágoa
pela espera a que já nem conto os dias;
são manhãs, tardes e noites infinitas
dias quentes, manhãs frias
metade de mim tem-te aqui
a outra metade está aí.

Rui Miguel S F

quinta-feira, abril 17, 2008

A espera de Penélope (Esperança)

A espera de Penélope (Esperança)
Rui Miguel S F

Dizem que olho o mar perdida
e é lá que te encontro
no vento das ondas.
Levo a água salgada à cara
e sei que ela te viu
lá onde navegas, tão longe.
Canta-me a maré
e oiço a tua voz.
Recebe-me as lágrimas o oceano
e a esperança de que um dia regressarás
e este sofrimento longo,
todo este pranto,
o mar me traz
e o mar levará.

quinta-feira, abril 10, 2008

O outro lado do mar (ou canção ao mar)

O outro lado do mar
(ou canção ao mar)
Rui Miguel S F

Os dias de branca luz
estão ao longe
do outro lado do mar,
olho perdido o horizonte onde me procuro confortar.

Tenho o sal pela pele
a água doce urge encontrar
mas, só olho para a luz ao longe,
do outro lado do mar.

Espelham-me as ondas a saudade
neste porto que sonho abandonar
no rosto lês-me a ida
depois tardam-me as asas com que quero voar.

Oxalá eu chegue depressa
ao outro lado do mar.
Por viagem segura não me interessa
pois desespero por chegar
e morrerei se ficar.



Em alto mar. Atlântico norte. São Jorge com a ilha do Pico ao fundo, Açores.

sexta-feira, março 21, 2008

Homenagem

Homenagem
Rui Miguel S F

Desceu um manto branco pela planície
e, o céu azul procurou o abraço
da planura do horizonte.
Olho o espaço aberto
agora tão vazio.
O tempo despiu-te da terra
e as tuas searas outrora douradas
já não dançam ao vento.
Hoje, hoje é um deserto antigo
e, a memória o meu único abrigo.

a Avó, 02.05.1909 - 21.03.2008

domingo, março 16, 2008

Nunca deixei de te ouvir

Nunca deixei de te ouvir
Rui Miguel S F

Nunca deixei de te ouvir,
murmuras-me como a água do mar,
oiço-te na noite,
durante os dias.
Tens o sabor da água salgada
e és como um farol longínquo
de luz dispersa na névoa.
Eu, ainda mergulho em ti
faço-me à areia e olho-te de perto
'tás nua e transparente
és como um sopro de espuma salgada
que me acaricia a pele e solta o teu sabor
de praia ao luar d'uma noite quente,
e às escuras há um caminho em mim
sempre para ti.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Boleros

Há poucos meses, ensinaram-me a ouvir boleros. Não foi necessário muito para passar a ficar horas a ouvir a intensidade deste género musical. É um tipo de música que vive da força interior. É uma música que vem da alma e depressa nos encontramos envolvidos pelo seu embalo. É uma viagem sentimental.
Há vários artistas maravilhosos que interpretam o género. Los Panchos com Eyde Gorme, Chavela Vargas, Maria Martha Serra Lima, Luis Miguel, Pablo Milanez entre muitos outros que se vão descobrindo. Há os dos boleros mais clássicos, os dos mais intensos e interiores (os meus eleitos) e as novas interpretações (como com Lila Downs). Los Panchos com Eyde Gorme e Chavela Vargas são os meus preferidos. Por esta música viaja-se por toda a América Latina, pelos seus poetas e por lugares que se despenham na alma; pueblos mexicanos com praças em festa em noites quentes, o mar de Peru, Buenos Aires num entardecer em Puerto Madero ou uma noite solidão à luz da lua do Chile...
Eu comecei ao acaso com Chavela Vargas. Ouvi "Tu me acostumbraste" (uma música absolutamente incrível) repetindo-a sem parar. Encontrava nela sempre um novo sentido, um novo significado. Depois, uma amiga querida e para siempre inolvidable começou por dar-me a "Sabor a mí" interpretada por Los Panchos e Eyde Gorme, e apartir daí não mais deixei de ser acompanhado pelo género nas tristezas, nas alegrias, nas euforias... Procurei tudo de Chavela e de Los Panchos.
De Chavela Vargas, para além da música que não tenho forma de explicar a sua intensidade, a sua forma ou a forma como se atira à alma como um lobo se atira à sua presa, tem ainda a particularidade de ser uma pessoa para lá do extraordinário. Repleta de bravura, depois de chegar ao México, país que a acolheu vinda da Costa Rica, conviveu e teve como amigos personalidades como Frida Kahlo, Diego Rivera, Guadalupe Amor ou Dolores del Rio. Com 87 anos vive, canta e faz viver. É uma lenda.
Com Los Panchos (e Eyde Gorme em particular) o registo adocia-se, mas não se deixa domar.
A alma agradece, pois vê-se a princípio exposta das suas fraquezas, para depois lentamente se deixar revelar e pacificar deixando as dores tornarem-se sorrisos de vida.. e tudo em forma de canto.
Claro que o amor pela música e pela multiculturalidade são condição primárias. Se for o seu caso, deixe-se levar e verá que está perante uma das melhores terapias.


Luz de luna pela lendária Chavela Vargas



Yo quiero luz de luna
Para mi noche triste
Para soñar divina
La ilusión que me trajiste
Para sentirte mía, mía tú
Como ninguna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Si ya no vuelves nunca
Provincianita mía
A mi senda querida
Que está triste y está fría
En vez de en mi almohada
Lloraré sobre mi tumba
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Yo siento tus amarras
Como garfios, como garras
Que me ahogan en la playa
De la farra y el dolor
Y siento tus cadenas a rastras
En mi noche callada
Que sea plenilunada
Y azul como ninguna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido
luz de luna.


Sabor a mí com o trio Los Panchos e a belíssima voz de Eyde Gorme



Paloma Negra uma música tornada imortal por Chavela Vargas na voz de Lila Downs

domingo, fevereiro 10, 2008

Mudanças no horizonte

As eleições americanas de 2008 merecem um olhar muito atento.
Seja qual for o candidato eleito a presidente, não penso que se produzam grandes modificações a nível global das políticas até agora praticadas, sobretudo porque o que se passa na política internacional é hoje uma "quase fuga para a frente" na espectativa de que alguma coisa possa acontecer que deflagre uma solução que agrade a todos (bem sabemos da impossibilidade de tal acontecimento). Falo, claro está, do conflito no Iraque e toda a instabilidade daquela região do mundo. Ao invés, penso que a nível interno nos EUA possam acontecer mudanças significativas dependendo do candidato eleito.
Mas, há um outro sinal para o mundo vindo das primárias americanas. Temos um negro e uma mulher a disputar um lugar. Não creio que essa mensagem tenha o devido destaque em Portugal, onde a nossa democracia está cada vez mais reduzida de representatividade.
Mas, essa parece-me a grande mudança. Hillary é o rosto da coragem depois dos escândalos a que foi sujeita no passado como Primeira Dama. Obama é o primeiro negro com reais possibilidades de se tornar Presidente do EUA. Pela primeira vez o mundo assiste a uma luta de poder mais próxima da representatividade. É uma revolução ao nível da consciência humana. É uma imagem muito poderosa: nos EUA na disputa do lugar mais poderoso pela primeira vez um homem negro e uma mulher. Impensável à poucos anos.
Não sei das reais capacidades de um e de outro. Dos lobbys que os apoiam não sei ao certo, mas o que podemos olhar com atenção é para a abertura que o mundo lentamente (demasiadamente) começa a ter para a diversidade e igualdade de direitos.
O país mais rico, poderoso e odiado do mundo está a dar uma lição democrática extraordinária (revolucionária) e acendeu mais uma vez o rastilho. A mudança está aí, só precisamos de não a ignorar.




domingo, fevereiro 03, 2008

Sons ambientes.. (Domingos a.m.)

Sons ambientes..
(Domingos a.m.)

As manhãs de Domingo instrospectivas, acontecem-me ao sabor de certos elementos específicos. Não que eles sejam absolutamente necessários para que "isso" aconteça, mas têm a propriedade de acelerar ou retardar o tempo e a sua constância. Hoje é o frio, a chuva, o vento, o cinzento do dia para lá do grande vidro que me separa do toque deles. Cá dentro é o café e o seu aroma intenso, o conforto e algumas músicas em ambiente. Corro algumas revistas e jornais internacionais e há neles grandes acontecimentos, outros pequenos também. O mundo parece infinito e no instante seguinte parece tão pequeno e ao alcance de nós.
As pessoas são fantásticas na sua diversidade e na viagem que fazemos nelas encontramo-nos a nós.
Gosto dos Domingos de manhã assim.

Sugestão a) Alice Russell - To Know This (Live at Hanbury Ballroom)



Sugestão b) Mariana Aydar - Beleza Pura



Sugestão c) Céu: Malemolencia

sábado, dezembro 22, 2007

A vida é um romance, somos novas possibilidades e a saudade

A vida é um romance

Gostamos de chamar simples às coisas que são providas de pouco grau de liberdade, e complexas às coisas envoltas em numerosos graus de liberdade. A ideia de reduzir a complexidade a fenómenos simples sujeitos a leis deterministas e reversíveis domina as ideias. Estas ideias deterministas reduzirem as sociedades a lugares desenhados geometricamente, onde o indivíduo faz parte de uma engrenagem qualquer matemática. Tudo parece estar previamente determinado por um regime de leis visíveis, invisíveis outras. Das leis comportamentais, às leis morais, ao desenho geométrico do espaço da cidade, ao desenho hierárquico social, tudo passou a poder ser previsto e antecipado, sendo o imprevisto reduzido, separado, ostracizado a um local invisível da sociedade, as margens da mesma. A engrenagem social determina o caminho, ou as variantes para um mesmo.
Mas, a vida é um romance, envolto em entropia.

Quando em 1911, o Barão Fourrier descobre a lei segundo a qual o fluxo de calor é determinado pelo gradiente de temperatura - começa o calor ir do quente para o frio, introduziu uma orientação temporal, um elemento irreversível, em contradição absoluta com as leis da ciência clássica. Fez escândalo naquela época entre os newtonianos. Foi a prova de que o mundo, implicitamente, concilia duas visões: uma obedecendo a leis, deterministas e outra fiel à entropia ao indeterminismo, à liberdade. Foi a ruptura com o determinismo.
A ciência compreendeu à muito que o universo é muito diferente daquela geometria intemporal que correspondia ao ideal da ciência clássica. O mundo que começamos a decifrar é mais parecido com um romance, onde as histórias se ligam umas às outras: a história cosmológica, a história da vida e a nossa própria história.


Somos novas possibilidades

Ainda não estamos habituados a uma visão que considera a complexidade do universo, a complexidade de nós próprios, dos nossos caminhos individuais. Sempre o soubemos e sempre optámos pelo facilitismo organizacional do previamente derterminado. Aquilo a que chamamos de organização revelou-se um lugar de esquizofrenia e de floresta de muros visíveis e invisíveis. Ao olharmos a natureza encontramos um princípio de auto-organização longe do equilíbrio. É importante que seja longe do equilíbrio, porque dentro do equilíbrio somos apenas matéria inerte, passiva. Longe do equilíbrio, a matéria torna-se activa. Explora, sem parar novas possibilidades.
Tentar reduzir o que somos a uma simplicidade definida por uma equação matemática ou definição gramatical ou a um código de conduta será desligarmo-nos das possibilidades; sairemos do caminho da liberdade, da descoberta, dos sentimentos.

E a saudade

Podia ser o amor, mas a saudade é a sétima palavra de mais difícil tradução de todas as palavras conhecidas no mundo, segundo a empresa Today Translations. São estas palavras que nos fazem compreender um pouco do cariz e complexidade cultural do outro, de outras histórias da vida. Elas obrigam a uma reflexão, à experiência cultural das palavras, pois muitas delas são sinónimos de estados de alma muito particulares. Se me pedirem para traduzir a palavra saudade eu dar-lhes-ei a ouvir esta música.


Guarda-me a vida na mão
(interpretado por Ana Moura)

Guarda-me a vida na mão
Guarda-me os olhos nos teus
Dentro desta solidão
Nem há presença de Deus

Como a queda dum sorriso
P’lo canto triste da boca
Neste vazio impreciso
Só a loucura me toca

Esperei por ti todas as horas
Frágil sombra olhando o cais
Mas mais triste que as demoras
É saber que não vens mais

Continuamos a ser um mistério que alguns querem desvendar e outros controlar; deixar o iceberg devidamente mergulhado. A liberdade é quando nos desvendamos no outro descobrindo o que o outro é em nós.



Mistérios
(Luis Fernando Verissimo)


Ninguém é o que parece
ou o que aparece.
O essencial não há quem enxergue.
Todo mundo é só a ponta
do seu iceberg.


Que 2008 permita o mundo avançar pelo caminho da descoberta.