sábado, setembro 05, 2009

Yes. We. Can.

O poder da palavra, o poder da esperança e da força do querer. A força da democracia. Da democracia de uma sociedade, do sentido democrático individual. O estímulo do discurso inspirando cada um a acreditar que pode conseguir.
Um momento singular na história da sociedade ocidental.


Discurso de Barack Obama's em New Hampshire


We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can withstand the power of millions of voices calling for change.
We have been told we cannot do this by a chorus of cynics who will only grow louder and more dissonant in the weeks to come. We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope.

But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope. For when we have faced down impossible odds; when we've been told that we're not ready, or that we shouldn't try, or that we can't, generations of Americans have responded with a simple creed that sums up the spirit of a people.

Yes we can.

It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation.

Yes we can.

It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom through the darkest of nights.

Yes we can.

It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness.

Yes we can.

It was the call of workers who organized; women who reached for the ballot; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountain top and pointed the way to the Promised Land.
Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity andprosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world.
Yes we can.

And so tomorrow, as we take this campaign South and West; as we learn that the struggles of the textile worker in Spartanburg are not so different than the plight of the dishwasher in Las Vegas; that the hopes of the little girl who goes to a crumbling school in Dillon are the same as the dreams of the boy who learns on the streets of LA; we will remember that there is something happening in America; that weare not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in America's story with three words that will ring from coast tocoast; from sea to shining sea
Yes. We. Can.

segunda-feira, agosto 31, 2009

A lentidão

A lentidão de Milan Kundera

(...) "O homem inclinado para a frente na sua motorizada só pode concentrar-se no segundo presente do seu voo; agarra-se a um fragmento do tempo cortado tanto do passado como do futuro; é arrancado á continuidade do tempo; está fora do tempo; por outras palavras, está num estado de êxtase; nesse estado, nada sabe da sua idade, nada da mulher, nada dos filhos, nada das suas preocupações e, portanto, não tem medo, porque a fonte de medo está no futuro, e quem se liberta do futuro nada tem a temer. A velocidade é a forma de êxtase com que a revolução técnica presenteou o homem. Ao contrario do motociclista, quem corre a pé continua presente no seu corpo, obrigado ininterruptamente a pensar nas suas bolhas, no seu ofegar; quando corre sente o seu peso, a sua idade, mais consciente do que nunca de si proprio e do tempo da sua vida. Tudo muda quando um homem delega a faculdade da velocidade a uma maquina: a partir de então, o seu proprio corpo sai do jogo e ele entrega-se a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase. Curiosa aliança: a fria impessoalidade da técnica e as chamas do êxtase. O culto do orgasmo: o utilitarismo puritano projectado na vida sexual; a eficácia contra a ociosidade; a redução do coito a um obstáculo que se deve ultrapassar o mais depressa possivel para se chegar a uma explosão extática, único verdadeiro alvo do amor e do universo. Porque terá desaparecido o prazer da lentidão? Ah, onde estão os deambuladores de outrora? Onde estão esses heróis indolentes das canções populares. esses vagabundos que preguiçam de moinho em moinho e dormem ao relento? Terão desaparecido com os caminhos campestres, com os prados e as clareiras, com a natureza? Há um provérbio checo que descreve a sua ociosidade por meio de uma metáfora: comtemplam as janelas de Deus. Quem comtempla as janelas de Deus nao se aborrece; é feliz." (...)
Pois necessitamos de desertos sem tempo, de preliminares longos, de olhares demorados, de olhos abertos que se fecham por tempo indeterminado... Aquiles ou Ulisses? Ulisses pois!

sábado, janeiro 10, 2009

Two gentlemen of Verona

Comecei o ano com "Two gentlemen of Verona" de Shakespeare.As aventuras da paixão, do amor e da amizade de Valentine e Proteus e a disputa pelo amor de Silvia...

(Act 3, Scene I):

VALENTINE
And why not death rather than living torment?
To die is to be banish'd from myself;
And Silvia is myself: banish'd from her
Is self from self: a deadly banishment!
What light is light, if Silvia be not seen?
What joy is joy, if Silvia be not by?
Unless it be to think that she is by
And feed upon the shadow of perfection
Except I be by Silvia in the night,
There is no music in the nightingale;
Unless I look on Silvia in the day,
There is no day for me to look upon;
She is my essence, and I leave to be,
If I be not by her fair influence
Foster'd, illumined, cherish'd, kept alive.
I fly not death, to fly his deadly doom:
Tarry I here, I but attend on death:
But, fly I hence, I fly away from life.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Freelove

Freelove

If you've been hiding from love
If you've been hiding from love
I can understand where you're coming from
I can understand where you're coming from

If you've suffered enough
If you've suffered enough
I can understand what you're thinking of
I can see the pain that you're frightened of

And I'm only here
To bring you free love
Let's make it clear
That this is free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love

I've been running like you
I've been running like you
Now you understand why I'm running scared
Now you understand why I'm running scared

I've been searching for truth
I've been searching for truth
And I haven't been getting anywhere
No I haven't been getting anywhere

And I'm only here
To bring you free love
Let's make it clear
That this is free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love

Hey girl
You've got to take this moment
Then let it slip away
Let go of complicated feelings
Then there's no price to pay

We've been running from love
We've been running from love
And we don't know what we're doing here
No we don't know what we're doing here

We're only here
Sharing our free love
Let's make it clear
That this is free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love
No hidden catch
No strings attached
Just free love

quinta-feira, outubro 30, 2008

A pele marca o tempo

Ser livre, é também, chegar ao fim de um dia longo com um sorriso de tranquilidade. Sentir que o tempo não está perdido.

A pele marca o tempo
na tua face tens os momentos
tantas as horas
os risos, sofrimentos
a sede e a fome do mundo
um turbilhão de sentimentos.

Rui Miguel SF

sexta-feira, setembro 05, 2008

Vier letzte Lieder

Há muitas formas de sentir uma música. Vier letzte Lieder são um caso especial. Desde a primeira vez que as ouvi, não mais deixaram de me inquietar. Reconheço, de imediato o início de Früling e sinto as cores e a “passagem”, a espera de September. O magnífico Beim Schlafengehen... e, Im Abendrot, é de uma beleza e suavidade indescritíveis. As quatro músicas invocam um ambiente único que proporcionam aos sentidos um desmembramento e uma flutuação de alma para um sub mundo interno sempre tão estranho a nós mesmos.
São obras de extrema beleza e cuidado. Emanam um profundo e único sentido de calma e contemplação pela vida, onde o fim, a mudança são encarados com tranquilidade e aceitação. As coisas simples e humildes da vida que fazem a essência humana.
É do mais puro da arte.
Voltei a ouvi-las, em excertos, como sonorização de um documentário da RTP. Já não as ouvia à imenso tempo e aos primeiros acordes, não evitei a surpresa, a inquietude. Sentei-me e vi o documentário até ao fim.
Neville Cardús disse a propósito deles que era a mais bonita despedida do mundo que o grande músico podia ter feito.
As Vier letzte Lieder (quarto últimas canções) - Früling (Primavera), September (Setembro), Beim Schlafengehen (Indo dormir), todos poemas de Hermann Hesse e Im Abendrot (Ao entardecer), poema de Eichendorff - foram as últimas criações do compositor alemão Richard Strauss. Tinha 84 anos quando as compôs e não conseguiu viver para presenciar a sua estreia em palco a 22 de Maio de 1950 em Londres - pela soprano Kirsten Flagstad e a Philarmonia Orchestra conduzida por Wilhelm Furtwängler.

Im Abendrot
(Text: Joseph von Eichendorff)

Wir sind durch Not und Freude
gegangen Hand in Hand,
vom Wandern ruhn wir (beide)
nun überm stillen Land.

Rings sich die Täler neigen,
es dunkelt schon die Luft,
zwei Lerchen nur noch steigen
nachträumend in den Duft.

Tritt her und lass sie schwirren,
bald ist es Schlafenszeit,
dass wir uns nicht verirren
in dieser Einsamkeit.

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot.
Wie sind wir wandermüde–
ist dies etwa der Tod?


Ao entardecer
(Poema de: Joseph von Eichendorff)

Pela dor e a alegria
caminhámos de mão dada,
do nosso deambular descansamos agora (ambos)
na quietude do campo.

Os vales curvam-se em nosso redor,
o ar torna-se escuridão,
apenas duas cotovias elevam,
anelantes, o voo em pós da noite perfumada.

Vem para aqui e deixa-as voar,
em breve serão horas de dormir.
Oxalá não nos percamos
nesta solidão.

Oh vasta paz serena,
tão profunda ao entardecer!
Que cansados estamos de vaguear!
Acaso será isto a morte?

terça-feira, setembro 02, 2008

Fortaleza

Fortaleza
Rui Miguel SF

Bate o vento nordeste na fortaleza
da muralha voa o pó, a poeira
a luz do céu fica incerta
e o chão da terra areia.

Logo veio a noite mais escura
e dela nunca a lua se viu
nem isso te quebrou os muros
mas, aqui nada resistiu.
Quebraram os que se pensavam fortes.
Nesta guerra
morrem aqueles que procuram a morte,
na suja terra.
Não há uma noite que se durma,
com o coração alerta
sob o frio vento norte
ninguém se acostuma.
Na dor há quem desista
quando nenhuma é a esperança e,
da muralha da fortaleza
só a poeira, só a areia.
"Não há um que seja mais forte",
sentenciou a morte.
Perderam os dois, atirados à dor.

Perdeu o amor.

quinta-feira, agosto 28, 2008

"La poesia es música que habla"

"La poesia es música que habla"
Horacio Ferrer

Desnuda sobre la cama
Rui Miguel SF

Quisiera tocarte con las manos,
de mañana, a la tarde, en la noche,
tener tu piel entre mis dedos
desnuda sobre la cama.

Me aprisionan tus ojos de luna llena
y a la luz del cielo,
tu cuerpo desnudo sobre la cama,
eres del paraíso dueña.

Cuando no estas, te sueño
...desnuda sobre la cama,
nun mundo dorado
sin cuerpos, solo almas.

Estas desnuda sobre la cama...
Abrazos y besos
la luz de luna
y nuestro silencio.

Revisto gentilmente por Elizabeth Biondi Rojas


Este no es mi lenguaje nativa, pero es la sonoridad que procuraba; las palabras tienen sonidos propios, que los lugares, las calles, las personas le dan y crean en las palabras significados singulares.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Um trio de trovas

Um trio de trovas, por Rui Miguel SF

1.
Trova (N.N.)

São os teus olhos, as tuas mãos
o teu cheiro e o teu corpo
a tua voz canção
que me dão o ar de vida que sorvo.

2.
Trova (do mar)

Corre veloz o vento do mar
traz à terra os sonhos e a ilusão
de outro lugar
onde está o coração.

3.
Trova (da alma)

É de maresia o meu olhar
a minha pele é do teu sal
tenho sonhos azuis de mar
deste-me o nome de Portugal.

domingo, julho 27, 2008

Mergulhei ao longo dos teus olhos

Mergulhei ao longo dos teu olhos
Rui Miguel SF

Mergulhei ao longo dos teus olhos
na tua luz profunda.
Caminhei pela tua mão fora
ao sabor do teu vento.
Os teus olhos eram mãos
e as tuas mãos água no meu corpo...
Eras um oceano
eu uma onda solitária,
eras as estrelas num céu escuro
que eu sonhei ter.
Chamei-te nuvem
mas, eras horizonte
sempre perto
sempre longe.

a: Neiara Nívea Lima Costa, 11.03.2008

quinta-feira, maio 08, 2008

À linha d'água

Sento-me à linha d'água
e lanças-me a espuma e o sal
enches-me de maresia
cheiras a alegria e mágoa
pela espera a que já nem conto os dias;
são manhãs, tardes e noites infinitas
dias quentes, manhãs frias
metade de mim tem-te aqui
a outra metade está aí.

Rui Miguel S F

quinta-feira, abril 17, 2008

A espera de Penélope (Esperança)

A espera de Penélope (Esperança)
Rui Miguel S F

Dizem que olho o mar perdida
e é lá que te encontro
no vento das ondas.
Levo a água salgada à cara
e sei que ela te viu
lá onde navegas, tão longe.
Canta-me a maré
e oiço a tua voz.
Recebe-me as lágrimas o oceano
e a esperança de que um dia regressarás
e este sofrimento longo,
todo este pranto,
o mar me traz
e o mar levará.

quinta-feira, abril 10, 2008

O outro lado do mar (ou canção ao mar)

O outro lado do mar
(ou canção ao mar)
Rui Miguel S F

Os dias de branca luz
estão ao longe
do outro lado do mar,
olho perdido o horizonte onde me procuro confortar.

Tenho o sal pela pele
a água doce urge encontrar
mas, só olho para a luz ao longe,
do outro lado do mar.

Espelham-me as ondas a saudade
neste porto que sonho abandonar
no rosto lês-me a ida
depois tardam-me as asas com que quero voar.

Oxalá eu chegue depressa
ao outro lado do mar.
Por viagem segura não me interessa
pois desespero por chegar
e morrerei se ficar.



Em alto mar. Atlântico norte. São Jorge com a ilha do Pico ao fundo, Açores.

sexta-feira, março 21, 2008

Homenagem

Homenagem
Rui Miguel S F

Desceu um manto branco pela planície
e, o céu azul procurou o abraço
da planura do horizonte.
Olho o espaço aberto
agora tão vazio.
O tempo despiu-te da terra
e as tuas searas outrora douradas
já não dançam ao vento.
Hoje, hoje é um deserto antigo
e, a memória o meu único abrigo.

a Avó, 02.05.1909 - 21.03.2008

domingo, março 16, 2008

Nunca deixei de te ouvir

Nunca deixei de te ouvir
Rui Miguel S F

Nunca deixei de te ouvir,
murmuras-me como a água do mar,
oiço-te na noite,
durante os dias.
Tens o sabor da água salgada
e és como um farol longínquo
de luz dispersa na névoa.
Eu, ainda mergulho em ti
faço-me à areia e olho-te de perto
'tás nua e transparente
és como um sopro de espuma salgada
que me acaricia a pele e solta o teu sabor
de praia ao luar d'uma noite quente,
e às escuras há um caminho em mim
sempre para ti.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Boleros

Há poucos meses, ensinaram-me a ouvir boleros. Não foi necessário muito para passar a ficar horas a ouvir a intensidade deste género musical. É um tipo de música que vive da força interior. É uma música que vem da alma e depressa nos encontramos envolvidos pelo seu embalo. É uma viagem sentimental.
Há vários artistas maravilhosos que interpretam o género. Los Panchos com Eyde Gorme, Chavela Vargas, Maria Martha Serra Lima, Luis Miguel, Pablo Milanez entre muitos outros que se vão descobrindo. Há os dos boleros mais clássicos, os dos mais intensos e interiores (os meus eleitos) e as novas interpretações (como com Lila Downs). Los Panchos com Eyde Gorme e Chavela Vargas são os meus preferidos. Por esta música viaja-se por toda a América Latina, pelos seus poetas e por lugares que se despenham na alma; pueblos mexicanos com praças em festa em noites quentes, o mar de Peru, Buenos Aires num entardecer em Puerto Madero ou uma noite solidão à luz da lua do Chile...
Eu comecei ao acaso com Chavela Vargas. Ouvi "Tu me acostumbraste" (uma música absolutamente incrível) repetindo-a sem parar. Encontrava nela sempre um novo sentido, um novo significado. Depois, uma amiga querida e para siempre inolvidable começou por dar-me a "Sabor a mí" interpretada por Los Panchos e Eyde Gorme, e apartir daí não mais deixei de ser acompanhado pelo género nas tristezas, nas alegrias, nas euforias... Procurei tudo de Chavela e de Los Panchos.
De Chavela Vargas, para além da música que não tenho forma de explicar a sua intensidade, a sua forma ou a forma como se atira à alma como um lobo se atira à sua presa, tem ainda a particularidade de ser uma pessoa para lá do extraordinário. Repleta de bravura, depois de chegar ao México, país que a acolheu vinda da Costa Rica, conviveu e teve como amigos personalidades como Frida Kahlo, Diego Rivera, Guadalupe Amor ou Dolores del Rio. Com 87 anos vive, canta e faz viver. É uma lenda.
Com Los Panchos (e Eyde Gorme em particular) o registo adocia-se, mas não se deixa domar.
A alma agradece, pois vê-se a princípio exposta das suas fraquezas, para depois lentamente se deixar revelar e pacificar deixando as dores tornarem-se sorrisos de vida.. e tudo em forma de canto.
Claro que o amor pela música e pela multiculturalidade são condição primárias. Se for o seu caso, deixe-se levar e verá que está perante uma das melhores terapias.


Luz de luna pela lendária Chavela Vargas



Yo quiero luz de luna
Para mi noche triste
Para soñar divina
La ilusión que me trajiste
Para sentirte mía, mía tú
Como ninguna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Si ya no vuelves nunca
Provincianita mía
A mi senda querida
Que está triste y está fría
En vez de en mi almohada
Lloraré sobre mi tumba
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Yo siento tus amarras
Como garfios, como garras
Que me ahogan en la playa
De la farra y el dolor
Y siento tus cadenas a rastras
En mi noche callada
Que sea plenilunada
Y azul como ninguna
Pues desde que te fuiste
No he tenido luz de luna
Pues desde que te fuiste
No he tenido
luz de luna.


Sabor a mí com o trio Los Panchos e a belíssima voz de Eyde Gorme



Paloma Negra uma música tornada imortal por Chavela Vargas na voz de Lila Downs

domingo, fevereiro 10, 2008

Mudanças no horizonte

As eleições americanas de 2008 merecem um olhar muito atento.
Seja qual for o candidato eleito a presidente, não penso que se produzam grandes modificações a nível global das políticas até agora praticadas, sobretudo porque o que se passa na política internacional é hoje uma "quase fuga para a frente" na espectativa de que alguma coisa possa acontecer que deflagre uma solução que agrade a todos (bem sabemos da impossibilidade de tal acontecimento). Falo, claro está, do conflito no Iraque e toda a instabilidade daquela região do mundo. Ao invés, penso que a nível interno nos EUA possam acontecer mudanças significativas dependendo do candidato eleito.
Mas, há um outro sinal para o mundo vindo das primárias americanas. Temos um negro e uma mulher a disputar um lugar. Não creio que essa mensagem tenha o devido destaque em Portugal, onde a nossa democracia está cada vez mais reduzida de representatividade.
Mas, essa parece-me a grande mudança. Hillary é o rosto da coragem depois dos escândalos a que foi sujeita no passado como Primeira Dama. Obama é o primeiro negro com reais possibilidades de se tornar Presidente do EUA. Pela primeira vez o mundo assiste a uma luta de poder mais próxima da representatividade. É uma revolução ao nível da consciência humana. É uma imagem muito poderosa: nos EUA na disputa do lugar mais poderoso pela primeira vez um homem negro e uma mulher. Impensável à poucos anos.
Não sei das reais capacidades de um e de outro. Dos lobbys que os apoiam não sei ao certo, mas o que podemos olhar com atenção é para a abertura que o mundo lentamente (demasiadamente) começa a ter para a diversidade e igualdade de direitos.
O país mais rico, poderoso e odiado do mundo está a dar uma lição democrática extraordinária (revolucionária) e acendeu mais uma vez o rastilho. A mudança está aí, só precisamos de não a ignorar.




domingo, fevereiro 03, 2008

Sons ambientes.. (Domingos a.m.)

Sons ambientes..
(Domingos a.m.)

As manhãs de Domingo instrospectivas, acontecem-me ao sabor de certos elementos específicos. Não que eles sejam absolutamente necessários para que "isso" aconteça, mas têm a propriedade de acelerar ou retardar o tempo e a sua constância. Hoje é o frio, a chuva, o vento, o cinzento do dia para lá do grande vidro que me separa do toque deles. Cá dentro é o café e o seu aroma intenso, o conforto e algumas músicas em ambiente. Corro algumas revistas e jornais internacionais e há neles grandes acontecimentos, outros pequenos também. O mundo parece infinito e no instante seguinte parece tão pequeno e ao alcance de nós.
As pessoas são fantásticas na sua diversidade e na viagem que fazemos nelas encontramo-nos a nós.
Gosto dos Domingos de manhã assim.

Sugestão a) Alice Russell - To Know This (Live at Hanbury Ballroom)



Sugestão b) Mariana Aydar - Beleza Pura



Sugestão c) Céu: Malemolencia

sábado, dezembro 22, 2007

A vida é um romance, somos novas possibilidades e a saudade

A vida é um romance

Gostamos de chamar simples às coisas que são providas de pouco grau de liberdade, e complexas às coisas envoltas em numerosos graus de liberdade. A ideia de reduzir a complexidade a fenómenos simples sujeitos a leis deterministas e reversíveis domina as ideias. Estas ideias deterministas reduzirem as sociedades a lugares desenhados geometricamente, onde o indivíduo faz parte de uma engrenagem qualquer matemática. Tudo parece estar previamente determinado por um regime de leis visíveis, invisíveis outras. Das leis comportamentais, às leis morais, ao desenho geométrico do espaço da cidade, ao desenho hierárquico social, tudo passou a poder ser previsto e antecipado, sendo o imprevisto reduzido, separado, ostracizado a um local invisível da sociedade, as margens da mesma. A engrenagem social determina o caminho, ou as variantes para um mesmo.
Mas, a vida é um romance, envolto em entropia.

Quando em 1911, o Barão Fourrier descobre a lei segundo a qual o fluxo de calor é determinado pelo gradiente de temperatura - começa o calor ir do quente para o frio, introduziu uma orientação temporal, um elemento irreversível, em contradição absoluta com as leis da ciência clássica. Fez escândalo naquela época entre os newtonianos. Foi a prova de que o mundo, implicitamente, concilia duas visões: uma obedecendo a leis, deterministas e outra fiel à entropia ao indeterminismo, à liberdade. Foi a ruptura com o determinismo.
A ciência compreendeu à muito que o universo é muito diferente daquela geometria intemporal que correspondia ao ideal da ciência clássica. O mundo que começamos a decifrar é mais parecido com um romance, onde as histórias se ligam umas às outras: a história cosmológica, a história da vida e a nossa própria história.


Somos novas possibilidades

Ainda não estamos habituados a uma visão que considera a complexidade do universo, a complexidade de nós próprios, dos nossos caminhos individuais. Sempre o soubemos e sempre optámos pelo facilitismo organizacional do previamente derterminado. Aquilo a que chamamos de organização revelou-se um lugar de esquizofrenia e de floresta de muros visíveis e invisíveis. Ao olharmos a natureza encontramos um princípio de auto-organização longe do equilíbrio. É importante que seja longe do equilíbrio, porque dentro do equilíbrio somos apenas matéria inerte, passiva. Longe do equilíbrio, a matéria torna-se activa. Explora, sem parar novas possibilidades.
Tentar reduzir o que somos a uma simplicidade definida por uma equação matemática ou definição gramatical ou a um código de conduta será desligarmo-nos das possibilidades; sairemos do caminho da liberdade, da descoberta, dos sentimentos.

E a saudade

Podia ser o amor, mas a saudade é a sétima palavra de mais difícil tradução de todas as palavras conhecidas no mundo, segundo a empresa Today Translations. São estas palavras que nos fazem compreender um pouco do cariz e complexidade cultural do outro, de outras histórias da vida. Elas obrigam a uma reflexão, à experiência cultural das palavras, pois muitas delas são sinónimos de estados de alma muito particulares. Se me pedirem para traduzir a palavra saudade eu dar-lhes-ei a ouvir esta música.


Guarda-me a vida na mão
(interpretado por Ana Moura)

Guarda-me a vida na mão
Guarda-me os olhos nos teus
Dentro desta solidão
Nem há presença de Deus

Como a queda dum sorriso
P’lo canto triste da boca
Neste vazio impreciso
Só a loucura me toca

Esperei por ti todas as horas
Frágil sombra olhando o cais
Mas mais triste que as demoras
É saber que não vens mais

Continuamos a ser um mistério que alguns querem desvendar e outros controlar; deixar o iceberg devidamente mergulhado. A liberdade é quando nos desvendamos no outro descobrindo o que o outro é em nós.



Mistérios
(Luis Fernando Verissimo)


Ninguém é o que parece
ou o que aparece.
O essencial não há quem enxergue.
Todo mundo é só a ponta
do seu iceberg.


Que 2008 permita o mundo avançar pelo caminho da descoberta.