domingo, agosto 26, 2007

Canção popular do Quebec, cuja interpretação de Shang Wenjie & The Choir of Beijing Takah é maravilhosa. Está no filme The painted veil.

"A La Claire Fontaine"

À la claire fontaine, m'en allant promener,
J'ai trouvé l'eau si belle que je m'y suis baigné.
Il y a lontemps que je t'aime, jamais je ne t'oublierai.
Sous les feuilles d'un chêne, je me suis fait sécher.
Il y a lontemps que je t'aime, jamais je ne t'oublierai.
Sur la plus haute branche, un rossignol chantait.
Il y a lontemps que je t'aime, jamais je ne t'oublierai.
Chante, rossignol, chante, toi qui as le coeur gai;
Tu as le coeur à rire, moi je l'ai à pleurer.
Il y a lontemps que je t'aime, jamais je ne t'oublierai.
J'ai perdu mon ami sans l'avoir mérité.
Pour un bouquet de roses que je lui refusai.
Il y a lontemps que je t'aime, jamais je ne t'oublierai.
Je voudrais que la rose fût encore au rosier,
Et que mon douce ami fût encore à m'aimer

quarta-feira, abril 04, 2007

Marcha dos desalinhados

Resistir é das acções humanas mais difíeis de se cumprir. A mais difícil, dura, isolada e desafiante. A mais completa do ser-se num momento, num espaço.
Quando teremos consciência do que que nos impele, daquilo que nos move?
O conhecimento não nos tornou livres, nem nos tornará, ao invés, continuamos as mesmas presas fáceis e desamparadas de toda a espécie de loucura. Apenas, hoje, mais vulneráveis à massificação imparável das coisas e dos actos.
Ser livre é uma acção interior bem dentro da alma que transpira pelos olhos de quem por ela (leia-se liberdade) se expressa e comunica. Ser livre é cada vez mais resistir cá dentro.
Marcha dos desalinhados

Eu não quero ficar parado
fico velho
vou marchar até ao fim
isolado

Nesta marcha solitá¡ria
dou o corpo ao avançar
neste campo aberto ao céu

Ninguém sabe
para onde eu vou
ninguém manda
em quem eu sou
sem cor nem deus nem fado
eu estou desalinhado

Por tudo o que lutei
ser sincero
por tanto que arrisquei
ainda espero
Esta marcha imaginária
quantas baixas vai deixar
neste sonho desperto?

terça-feira, março 27, 2007

Leave your stepping stones behind, something calls for you

...ainda não aprendi a colocar aqui um "reprodutor" de música.. então, ficam as letras da dita! No fundo, acho que elas dizem tudo, a melodia aparece algures no momento da sua leitura.


It's All Over Now, Baby Blue
(Bob Dylan)

You must leave now, take what you need, you think will last
But whatever you wish to keep, you better grab it fast
Yonder stands your orphan with his gun
Crying like a fire in the sun
Look out the saints are comin' through
And it's all over now, Baby Blue.

The highway is for gamblers, better use your sense
Take what you have gathered from coincidence
The empty handed painter from your streets
Is drawing crazy patterns on your sheets
This sky, too, is folding under you
And it's all over now, Baby Blue.

All your seasick sailors, they are rowing home
Your empty handed armies, are all going home
Your lover who just walked out the door
Has taken all his blankets from the floor
The carpet, too, is moving under you
And it's all over now, Baby Blue.

Leave your stepping stones behind, something calls for you
Forget the dead you've left, they will not follow you
The vagabond who's rapping at your door
Is standing in the clothes that you once wore
Strike another match, go start a new
And it's all over now, Baby Blue.

terça-feira, março 06, 2007

Stay with me

Stay with me

A story in two languages
Uma história a duas línguas
I
Abria a porta como todos os dias pelo fim da tarde. A casa, apesar de ser pequena, era demasiado grande. Quando fechava a porta, ouvia ao fundo o eco perturbador da sua batida. Todos os dias quando a abria aquele ruído ecoava dentro de mim. Dava comigo como no fundo de um poço com uma réstia ténue de água salubre onde todos os movimentos ecoavam em círculos de espiral de fora para dentro até ao fundo das minhas entranhas.
Pousava o casaco, quando o trazia, ou simplesmente dirigia os meus acelerados passos até ao escritório ao fundo do hall. Sentava-me e apressadamente ligava o pc. Tinha aquela curiosidade de abrir o e-mail como quem abre um presente, ou melhor, como quem toca à campaínha e espera por alguém do outro lado da porta. Os olhos para mim sempre foram os melhores presentes... Aqueles segundos que antecediam a abertura "da porta" eram inexplicavelmente angustiantes. Deixavam-me numa expectativa que, julgo, era adicionada a alguma dose de adrenalina, pois sentia todo o meu corpo expectante por aquele momento.
Na verdade, eu nunca cheguei a perceber bem porque me sentia assim. Houve um momento que pensei tratar-se de uma mania qualquer perturbadora. Aquilo, realmente não fazia o menor sentido. Num dos dias que mais pensei no assunto, levei-me até ao DSM à procura de alguma sintomatologia semelhante, na ânsia de me ver descrito numa qualquer doença mental estranha. A verdade, é que nunca encontrei o que quer que fosse. Mas, a verdade maior é que eu nunca percebi nada de doenças mentais... Talvez tivesse sido desde o ínicio uma história bem planeada por alguma parte demasiadamente inteligente do meu inconsciente...
Enfim, ainda equacionei a visita a um psi qualquer. Lembrei-me do J. e do F., mas não fazia o menor sentido. Eram tipos que eu conhecia de infância, e o F. sempre me pareceu meio louco. Tive sempre aquela sensação de que ele tinha insistido na psiquiatria para se tratar a ele próprio por vergonha de procurar um agente externo, talvez como se sentisse violado no seu íntimo. De certa forma, eu até entendia isso muito bem. Nunca gostei que me entrassem por mim adentro sem pedir licença, também se a pedissem não a obteriam... E, depois quando tinhamos aquelas saídas de copos, por volta das 2 da manhã no fim de todo o alcool que sorvia, tinha a estranha mania de contar com pormenores os casos mais "excitantes" ou enfadiosos dos seus clientes. Não queria ser o protagonista de uma Sexta Feira à noite num qualquer bar lá da baixa... O J. era demasiado sério para o incomodar com tamanha futilidade. Rapidamente esqueci a ideia.
II
Desconfio que dentro deste meu pc existem milhões de pessoas, com milhões de coisas ou segredos para contar. Mas, no mesmo instante, acho que desaparecem com a mesma velocidade com que aparecem. É aquela estranha sensação de poderes estar em todo o lado e ao mesmo tempo em lado nenhum. É um sentido esquizofrénico da alma, porque o corpo esse permanece no mesmo imutável lugar das partidas e das chegadas. O mesmo acontece com o meu e-mail. Passam por lá centenas de pessoas que desaparecem no mesmo instante. Tenho aquele comando tão precioso que diz "delete" que me provoca um sádico prazer... Também já cheguei a preocupar-me com essa história...
Sempreque abro o meu e-mail, em ânsia angustiante, vou de encontro a ti. Às vezes está lá no fundo no meio da publicidade e das propostas que nunca me interessaram. Oiço-te a rir, vejo os teus malmequeres e sinto a tua respiração . Tu ris e eu sei que o mar azul turquesa está atrás de ti, se tiver um daqueles dias de sol que só tu aí consegues ter. Às vezes no fim de te ler transpiro, não sei se de saudade se de alívio. Quando escreves à hora do pôr do sol, eu sinto isso, porque as tuas palavras têm um sabor a crepúsculo. No outro dia quando te tentei explicar a minha saudade tu disses-te que não conseguias perceber o "mourning state of mind" que eu insistia em querer dizer, e repetis-te "stay with me" "stay with me, is all i wish in the morning at the window when i woke up and i whisper my wishes to the sea".
- De onde tiras-te essa frase?
1

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Referendo ao aborto

...e finalmente o referendo lá se realizou (após um gasto de 9 milhões de euros, ao que parece). O "sim" desta vez lá ficou à frente do "não" e a abstenção venceu, mais uma vez, por maioria absoluta.
Desde sempre me pareceu que os portugueses, ou a sua maioria, não queria este referendo. Não queria abordar este assunto desta forma decrepita, por este ser um tema sem escolha possível numa sociedade liberal.
Tratou-se, desde sempre, este assunto sem a seriedade que se exige para o tratar como um jogo de futebol. Com ataques e contra-ataques e apitos dourados pelo meio, muitos cartões amarelos e vermelhos e os palavrões do costume... absolutamente desnecessário este triste espectáculo! Ambas os "clubes" tiveram os seus momentos negros. Nem por um momento se discutiram políticas de educação sexual e planeamento familiar. Nem de acompanhamento pré e pós vida... Ao invés, dei-me a ler no New York Times o tal padre que escreveu cartas em nome de "fetos" entregues em mão pelos filhos aos pais e tivemos as palmas e a fúria da vitória do SIM no final como se tivesse sido uma vitória a penaltys...

A maioria dos portugueses não votou. A maioria dos portugueses sempre apoiou a despenalização do aborto, o que não se achava era capaz de colocar um cruz onde se diz SIM ao aborto. Por peso de consciência. Pela violência. E, porque não era isso que deveria de ser discutido. Será difícil de compreender que nem todos se sentem confortáveis perante tamanha violência? Será difícil de entender que provavelmente ninguém é a favor do aborto, mas sim do desenvolvimento de políticas de educação sexual de planeamento familiar, de acompanhamento pré e pós vida, de defesa da mulher na tentativa de a ajudar nos seus problemas que a levam a essa trágica decisão e não em atirá-la para a clandestinidade onde a vida é o preço do risco???

Os referendos parecem uma invenção do Parlamento para se desmarcarem dos assuntos mais incómodos. Ou como o Carlos Magno disse, parecem lembrar os estudos de impacto ambiental: quando alguém está para começar algo, pede-se um estudo de impacto ambiental para simplesmente parar tudo...
A minha opinião sobre referendos é que eles são, exceptuando casos muito extraordinários, absolutamente desnecessários. Para quem teve uma educação liberal e se assume como tal e que interpreta o mundo dessa forma, referendar assuntos que não interferem com a liberdade individual de cada um, é uma "anormalidade" ridícula.
Eu sou a favor da despenalização do aborto porque sou liberal. E como Fernando Pessoa definiu, o liberalismo é a doutrina que defende que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo.


domingo, janeiro 07, 2007

Sonhos vencidos

Algumas vezes, tenho aqui, escrito sobre as coisas pequenas… aquelas tais que têm um dom especial de fazer crescer, modificar alguma coisa na essência de cada um. Não sei se acontece assim com todas as pessoas, talvez não. Nunca pensei realmente nisso e talvez nem o queira fazer. Comigo acontece.
Aconteceu no dia em que vi Million Dollar Baby – Sonhos vencidos, um filme de Clint Eastwood por si protagonizado, Hillary Swank e Morgan Freeman. Este filme foi, para mim, um choque ou um peso… criou momentos de crise em mim. O filme causou-me arrepios, mudou-me a expressão na face, contorceu-me o corpo no sofá, retirou-me as palavras e deixou-me mudo, obrigou-me a abrir mais os olhos e a fecha-los e molhou-os… assustou-me e deu-me vontade de sair e lutar mais … Criou uma revolta dentro de mim e deixou-me abatido e no instante seguinte fez-me cair por terra.
Talvez nem seja a palavra “peso” mas o próprio peso que tenha ficado. Não é o “peso” da culpa ou o “peso” de uma qualquer emoção arrebatadora que te deixa sem reacção – não acredito que seja um desses “pesos”… talvez seja o “peso” da vida, daquilo que ela é, pode ser ou se torna, das suas emoções e dos contrastes e lutas que se desenvolvem, nas disparidades das existências que as pessoas podem viver fruto de uma inexplicável lotaria, que eu gostaria tanto de saber a razão de ser, como se forma ou qual o caminho que pisa. Das emoções, dos sentimentos, das relações entre as pessoas, dos medos e dos risos mútuos e das decisões obrigadas – daquelas que fugimos que não queremos ter, de Deus... Da perda, mas também dos ganhos. Das vitórias e das derrotas. Da vida e da morte. Do principio e do fim.
Um momento pode ser o princípio e o próprio fim de uma razão ou da razão que está para além do que a compreensão possa descortinar.
Durante os momentos seguintes o meu corpo manteve-se contorcido pelo “peso”.. A leveza, essa, é insustentável e deixem-me acrescentar: é terrivelmente insustentável. É o “peso” que refina as emoções, traça o rosto com as marcas que não são só do tempo.. A vida é um mistério sem resolução, porque talvez, nunca se procure a resposta. Ou, porque tão simplesmente, tenhamos medo de colocar a verdadeira pergunta.
São os rasgos na pele de quando tiramos da nossa vida as pessoas que amamos que ajudamos a construir que nos construíram, por exigência dela própria. A vida talvez seja o somatório de duas partes: a batalha que travamos connosco e com os outros e a aleatoridade (porque acho que tenho medo de lhe chamar sorte) dos caminhos que ela nos faz seguir.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

"Poesia numa hora destas?!"

Eu sou daqueles que abrem o Expresso (estranha mania esta a de se ter de acompanhar por esta dose de papel semanalmente) procuram, antes de mais, aqueles dois ou três artigos ou colunas do costume. Nem que depois o resto do jornal, que eu desconfio ter dias a pesar mais de 2 kg, fique esquecido. O segundo passo da “estranha mania” a fazer lembrar rituais litúrgicos, é procurar (e é por esta ordem) a coluna de opinião do Miguel Sousa Tavares e depois a coluna do Luís Fernando Veríssimo, esta já constante do caderno que acompanha o jornal – a Actual. E, depois, claro, há o resto do jornal que tal como todos nós tem os seus dias: dias mais afortunados e outros mais infelizes…
O Miguel Sousa Tavares é conhecido, mas eu não sei quem é o Luís Fernando Veríssimo e na verdade nem me interessa, mas semana após semana, li o “Do lado de lá” (é assim que se intitula a sua coluna) e tornou-se um vício, desconfio que seja da sua escrita que procura envolver as palavras com sentidos e sentimentos por caminhos que acabam por nos ser, a maior parte das vezes, tão comuns… a envolvência encaminha-me direitinho e com pezinhos de lã lá para a terra “do não sei bem onde” – à la manière de “na terra do nunca”… e, deixa sempre o exercício do pensamento e da reflexão sobre o que nos vai rodeando. É esta sensibilidade, que na nossa contemporaneidade é tão estranha que mais me seduz. Eu acho que é de sensibilidade que o autor nos fala. “Talvez a sensibilidade tenha os seus ciclos próprios, independentes da evolução de outras capacidades humanas e da técnica. Ficamos mais bem aparelhados e produtivos em etapas sucessivas, mas o bom-gosto vai e vem sem qualquer lógica ou cronologia aparente. Como o comprimento das saias.” In: Actual, nº. 1781 de 16 de Dezembro de 2006 / Sul, pág. 25
Eu aconselho a leitura da coluna, mas deixo e sem autorização do autor - ele que me desculpe, mas fui incapaz de resistir à transcrição de algumas pérolas tão próprias do quotidiano do ano de 2006 que se apressa a deixar-nos…

Poesia numa hora destas?!

Desmatamento
«Um dia, meu filho»,
disse o velho índio
indicando o topo das árvores
como quem afasta um véu,
«tudo isto será céu.»
Determinismo
Resolvida a dúvida
que todo o mundo tinha.
Deus criou primeiro o ovo,
mas com instruções detalhadas
e todas as coordenadas
para virar galinha.
Contra-indicações
«Contra fel, moléstia, crime,
use Dorival Caymmi.»
Contra tudo o que é dark,
ouça e leia Chico Buarque.
Labirintite, luto, pus?
É batata: Moacyr Luz.
Contra impulsos suicidas,
leia coisas divertidas
até que a angústia estanque.
E muito, mas muito, Aldir Blanc.
A vida está dura? Zuenir Ventura.
Conta sem saldo? João Ubaldo.
Pavor de trombose? Zizzi Posi.
Essa sensação de segundo turno,
de desânimo generalizado,
e que de alguma maneira fizeram você de bobo?
Não esquenta: Edu Lobo.
Contra a enxaqueca,
Leia Rubem Fonseca,
contra o debacle amoroso,
ouça Caetano Veloso.
Abandonado como o Rei Lear?
Leia Moacyr Scliar.
Contra coriza e desdita,
ouça Maria Rita.
Contra aflição e lumbago,
leia Saramago.
Ninguém te ama, ninguém te quer?
Ouça o Charlie Parker.
Tudo é torto, tudo é tosco?
Ainda bem que tem João Bosco.
Contra o reles, Lygia Fagundes Telles.
Contra tudo que amola,
use Paulinho da Viola.
Contra medo do Opus Dei,
use Billie Holliday.
Contra qualquer tipo de crise,
ouça o Mauro Senise.
E, se persistir a dor,
procure um médico – ou o Millôr.
Lembrança
Lembra, querida,
a nossa primeira vez?
A toalha na praia, a lua,
um bolero ao fundo,
você cantando junto,
e eu com a mão no seu…
O quê? Não era você?
É mesmo. Agora me lembro.
Não era nem eu.”

In Actual, nº 1771 de 7 de Outubro 2006 / Norte, pág. 37

quinta-feira, novembro 09, 2006

O renascimento e a força do sim

O renascimento e a força do sim


Após longo interregno justificado pela ausência dos principais factores para as minhas vindas até aqui: tempo e vontade, cá estou eu de volta ao Rupturas.

Li a frase num qualquer lugar que já não recordo: "o renascimento e a força do sim"... ficou-me na memória ainda que não lhe encontrasse sentido algum. Hoje, esta frase de aparente desconexção, apareceu com um sentido muito próprio e óbvio.

O renascimento e a força do sim, como se o renascimento para um qualquer começo que estará para acontecer necessite, em desespero, de um sim - fundamentalmente de quem renasce.
O renascimento é como a Primavera - uma efervescência de vida em que o tempo não chega para acompanhar os sentidos. Nuvens brancas e céus azuis de intermeio com a chuva da gota a gota como recordações que caiem, lavam e limpam... e, sempre o tempo que não chega... E, como tu tão bem disseste, renascer no Outono é como se o corpo se rasgasse num tumulto ainda maior de sentidos e emoções.

Xiça, o bem que me faz a tua companhia!

Renascença s.f. Acto ou efeito de renascer (...)

Continuo em leituras castelhanas. No outro dia em que chovia a potes, peguei em Pablo Neruda... engraçado, cada vez que penso no título daquele livro do Lobo Antunes (do António) "Eu hei-de amar uma pedra" apetece-me Pablo Neruda. Há aqui duas questões que não consigo resolver: a primeira - porque a frase "Eu hei-de amar uma pedra" foi paixão á primeira vista, tenho-lhe um amor incrível. A segunda - porque quando "Eu hei-de amar uma pedra" me apetece Pablo Neruda? Perguntas que aguardam as vossas sugestões... há psi's por aí?

FAREWELL
Pablo Neruda

1
Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste, como yo, nos mira.
Por esa vida que árdera en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.
Por esas manos , hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.
Por sus ojos abiertos en la tierra.
veré en los tuyos lágrimas un día.

2
Yo no lo quiero, Amada.
Para que nada nos amarre
que no nos una nada.
Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron las palabras.
Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni sollozos junto a la ventana.

3
Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.

4
Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver amar.
Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.)

5
Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya que no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.
Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.
Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacía dónde voy.
... Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

domingo, setembro 10, 2006

11 de Setembro

11 de Setembro de 2001

Enquanto indivíduos, há acontecimentos nas nossas vidas que nos mudam para sempre, que alteram a nossa forma de olhar, de sentir e por consequência de agir. Esses momentos de ruptura, direi baseado na minha parca experiência, não são frequentes. As experiências limite que nos alteram os traços transversais daquilo que na essência somos e fazem de nós aquilo que somos e que os outros entendem de nós, não acontecem muitas vezes nas nossas vidas, nem seria possível que tal sucedesse sob pena de uma desordem identitária esquizofrénica. Enquanto indivíduos, essas experiências muitas vezes ficam no sigilo de uma história de construção que é a nossa, assim como os pilares são sustentados pelo ferro invisível que dá origem e forma a uma estrutura diferente. Aquilo que transparecemos é o resultado de várias variantes algumas delas apenas nós as conhecemos e muitas outras que nem nós as sabemos.
E, há acontecimentos na sociedade, que alteram a vida de milhões de pessoas em simultâneo. É como se um corpo social que se dirige numa direcção, bruscamente invertesse a direcção. São rupturas magnânimas. Ficam na história, prevalecem para sempre. São recordadas, estudadas, avaliadas. Ficam na história, mas mudam o futuro. Estes acontecimentos, também eles à semelhança dos acontecimentos nas nossas vidas privadas, são raros.
O 11 de Setembro de 2001 é um desses acontecimentos. Para além da queda do muro de Berlim, não recordo um acontecimento, durante a minha vida, com tanto impacto. E, mesmo a queda do muro de Berlim foi diferente. Foi um sinal de esperança já ansiosamente aguardado. Fazia parte de um plano de futuro. O 11 de Setembro foi um choque, um golpe, uma lança à alma e coração de todos. Um retrocesso. O mundo mudou naquele instante.
Até esse momento mantive uma ideia negativa do pensamento, política e modo de vida americano. No momento da catástrofe, vergonhosamente admito, senti algum alívio por alguma coisa estar a acontecer contra os Estado Unidos. Tinha uma posição anti americana, influência de alguma estranha corrente de pensamento(?) europeia.
Depois das imagens do 11 de Setembro, comecei a mudar, assim como o mundo mudou naquele mesmo instante. Demorei um pouco mais, mas fui ao encontro da essência do que é fazer parte de uma cultura ocidental assente em princípios e valores de liberdade. Não foi um ataque aos Estados Unidos. Foi um ataque ao mundo, a todas as pessoas que, apesar das imensas coisas erradas que fazemos e não conseguimos ainda transformar, acreditam que esta é uma forma de vida melhor, mais livre, mais justa e ainda inacabada e tal como nós imperfeita. Os Estados Unidos são resultado da Europa e a Europa é resultado dos Estados Unidos. Vivemos uma cultura semelhante. Bebemos as mesmas bebidas, vestimos os mesmos jeans, vemos as mesmas peças teatrais, ouvimos as mesmas músicas… aspiramos por sonhos semelhantes e, podemos escolher alguns dos caminhos por onde passamos.
No World Trade Center, vivivam, trabalhavam pessoas de todos os continentes, de muitas cores, de muitas culturas, de todos os estratos sociais, de muitas bandeiras, de muitas religiões. Não foi um ataque aos Estados Unidos. Foi um ataque a um mundo que não precisaria de barreiras, mas apenas de todos.



























2948 mortos confirmados

24 dos quais desaparecidos

de 37 nacionalidades diferentes

de todos os continentes da Terra

(3 cidadãos portugueses)

sábado, agosto 05, 2006

Uma viagem ao interior da alma

Não sou um cinéfilo daqueles que vêem todos os filmes, em vez disso, gosto do cinema pelo puro prazer dele, pela psicologia humana.. Depois de anos de Hollywood, acabei por me render ao cinema de Roberto Rossellini e pares... ao cinema que exige do espectador que seja mais do que isso, que pense, que seja activo na construção do mesmo. Numa recente entrevista dada à revista Time, a filha de Roberto Rossellini, Isabella, dizia que "Nós estamos acostumados a ir ao cinema onde te dizem: agora chore, agora um momento de suspense. É passivo..." nada, de facto, acontece, e um espectador é tratado como... um amputado da alma, sem acção e vontade própria.. Enfim, essa é uma característica da nossa sociedade e do nosso tempo: a falta de vontade e a falta de acção...
Mas, da última vez que levei um filme para ver, calhou em sorte "Diários de Che Guevara" ou como no original "Diários de motocicleta" do realizador brasileiro Walter Salles... Em tempo de férias, esta foi uma escolha recheada de sorte.. por tantas razões, algumas das quais inexplicáveis.
O filme, de 2004, tem todos os dons (e mais alguns) do bom cinema, desde o sonho, ao humanismo, às imagens deslumbrantes, às personagens deliciosas, ao "toque" que deixa dentro de cada um... que os filmes, para mim, são isso: o que deixam.
Mas, o que acontece? Segundo a sinopse oficial do filme: Che Guevara (Gael García Bernal) era um jovem estudante de Medicana que, em 1952, decide viajar pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). A viagem é realizada em uma moto, que acaba quebrando após 8 meses. Eles então passam a seguir viagem através de caronas e caminhadas, sempre conhecendo novos lugares. Porém, quando chegam a Machu Pichu, a dupla conhece uma colônia de leprosos e passam a questionar a validade do progresso econômico da região, que privilegia apenas uma pequena parte da população. Mas, o filme, é muito mais do que isso, muito mais mesmo. Sem revelar mais, sublinho a interpretação mais do que magnífica de Rodrigo de la Serna - inexquecível e a banda sonora.
Não é só um filme sobre Che Guevara. O Che pode ser qualquer um de nós. Há qualquer coisa que sem explicação aparente provoca um tumulto dentro da alma, uma revolução, uma imposição do sentido de liberdade, do sentido de emoção, do sentido da vida. No final, a alma mergulha numa sensação de vazio tão grande, que impõe-se uma mudança, por mais pequena que seja... e ela acontece mesmo.
É uma viagem profundamente simbólica.
Procuro alguém para a viagem.